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A carta




     Todas as manhas eram iguais. Acordar, descer e fazer o café, depois acordar a família para comermos juntos. Muitas vezes, fazíamos essa tarefa no mais profundo silêncio, que só era interrompido pelo estranho conhecido, chamado carteiro. Ele batia a porta com delicadeza e me entregava ás cartas, eu sorria e ao voltar a mesa já tinha separado a correspondência para mim, meu filho mais velho e meu marido. Para mim, nunca havia nada de interessante, às vezes uma conta, mas a grande maioria eram propagandas que iam direto para o lixo.

Nos finais de semana, a família não tinha compromissos, então todos desejavam acordar mais tarde, mas meus hábitos regulares me impediam de os imitar. Aproveitava aquelas horas desperdiçadas da manha para ler ou adiantar algum serviço do lar, assim a tarde ficava livre para ir ao cinema com minhas crianças ou para um almoço romântico.
A semana passava tão lentamente para mim. As sextas eram os piores dias, pois sempre tinha uma reunião do bairro onde mil mulheres se reuniam para reclamar ou apenas para criticar alguma pessoa diferente, ou quem passava por necessidade. Odiava aquele tipo de conduta, mas precisa fazê-lo para ser aceita. Para compensar, adorava os sábados, pois era quando meu marido me chamava para sair, fazia questão de colocar meu melhor vestido, algumas vezes ia ate mesmo no cabeleireiro, mas seria muito desperdício fazê-lo sempre, minha solução era dar meu próprio jeitinho dentro de casa.
      Nessa semana, o sábado parecia ainda mais distante, mas finalmente tinha chegado. Meu marido tinha prometido que iríamos ao cinema, já tinha tratado de passar um belo vestido de bolinhas pretas e meu cabelo estava dentro de uma touca, o rosto coberto por um leve mascara branca e para me distrair lia um romance qualquer que estava esquecido nas prateleiras da casa. Foi quando as conhecidas batidas suaves chegaram aos meus ouvidos. Levantei-me rapidamente, com medo de alguém na casa acordar e me ver naquele estado desarrumado. Abri a porta e sorri ao velhinho, que já não mais se assustava ao me ver naquelas condições. Ele me entregou a correspondência e após algumas poucas palavras trocadas foi embora. Fiz o mesmo de sempre, separei as cartas lentamente. Meu marido era quem mais tinha correspondência, sabia que tinha contas, mas para minha felicidade, muitas eram ofertas de emprego, afinal ele era um arquiteto muito bem sucedido. Meu filho mais velho tinha algumas correspondências, principalmente da namorada dele que estava em São Paulo. Por fim, vieram as minhas. Propaganda, propaganda, propaganda, conta e um envelope branco.
Naquele momento, tomei um susto, era uma carta? Para mim? Procurei o remetente, mas estava em branco, ali escrito em letras bonitas e redonda apenas havia meu nome e endereço. Achei estranho e comecei a cogitar inicialmente que talvez fosse um engano do carteiro, mas era impossível, pois era meu nome completo e ainda por cima meu endereço e ambos sem nenhum erro.
     Depois do choque inicial, me peguei pensando em quem poderia ter se dado ao trabalho de me escrever. Vaguei cuidadosamente minha vida, começando das primeiras lembranças que tinha. Minha infância, recordei que era tímida demais e que mesmo morando cercada por uma garotada da minha idade nunca tive coragem de aprofundar laços com ninguém. Adolescência, passei de tímida a rebelde e boa parte dos contatos que tinham na época tinham se perdido com o tempo. Lembrei do período da faculdade no qual fiz alguns colegas, mas que todos haviam se mudado para o exterior e eu já não tinha contatos há anos. Atualmente, minhas amigas se resumiam aos meus vizinhos e por motivos óbvios não havia necessidade de me escreverem.
Fiquei tentada a rasgar o envelope e ler seu conteúdo, mas de repente, um impulso mais forte do que eu me fez parar. Fui ate o banheiro calmamente, segurando apenas o papel branco. Retirei aquela parnafenalha toda e fiquei me olhando no espelho por demais pensativa. Enquanto analisava cada traço meu naquele reflexo um turbilhão de pensamentos me atravessava, mas um era mais forte.
Estava a imaginar o quão insignificante eu era fora das quatro paredes de minha casa, já que durante toda a minha vida eu nunca tinha conseguido marcar ninguém ao ponto delas se lembrarem de mim. Eu passava pela vida das pessoas como um simples coadjuvante no qual ninguém nem lembraria nome.
     Larguei o envelope sobre a mesa e caminhei devagar ate o quarto dos meus filhos, perguntava-me se também não seria apenas uma peça na vida dos meus filhos, afinal não sabia o que eles realmente sentiam, e as vezes os sentia tão longe de mim. Agora, depois de tanta reflexão, tinha medo de os perder e eles apenas irem embora pela porta sem gravar nada de sua velha mãe. Do mesmo modo, fui ao quarto de meu marido e comecei a duvidar de seu amor por mim, ele nunca fora o mais lindo dos homens, assim como eu nunca fui linda. Nos dois éramos totalmente normais e aceitáveis, nada bonitos nem nada feios. Comecei a me questionar se ele não tinha me pedido em casamento pelo simples fato da comodidade de ter uma pessoa ao seu lado para sempre.
     Esses pensamentos confusos me fizeram abandonar o andar superior e disparar porta afora em direção ao pequeno jardim que tínhamos. Sentei-me no bando e precisei respirar fundo para recuperar o ar, acho que estava transpirando, mas não liguei. Tinha sede, mas não bebi água.          Fiquei com a boca seca olhando para frente. O que me fazia tão pequena naquele mundo tão grande?
      Encolhi-me diante desse pensamento, mas não parei de pensar, continuei procurando uma resposta desesperadamente. Foi então que eu entendi. Eu era hipócrita. Jamais tinha sido verdadeira com ninguém em toda a minha vida. Numa ânsia desesperada de sempre agradar, nunca me impus e deixava que os outros fizessem o que quisessem de mim, mas amigos não servem para serem capachos e sim para serem companheiros. Fiquei mais aliviada, estranhamente, mais aliviada por descobrir um defeito meu. Foi quando, quase que num passe de mágica, percebi outro pequeno detalhe totalmente idiota que eu fazia: eu fingia não ter defeitos, mas os colocava em todo mundo.
Depois dessas duas simples descobertas, minha cabeça girava a mil e senti como se fosse perder o chão e para minha sorte eu estava sentada, senão teria desmaiado com toda a certeza. Esperei ate voltar ao normal para ir ate a cozinha tomar um copo de água, quando finalmente estava mais calma encarei a carta sobre a mesa. Era incrível quantas coisas tinham passado pela minha mente por causa de algo tão simples como o envelope.
    Fui ate a mesa e o segurei com vontade de abri-lo, mas havia duvidas na minha mente. Levei-a comigo ate a varanda, sentei-me sobre o mesmo banco e fiquei encarando o papel. Não sabia se queria abri-lo e confirmar que realmente não havia ninguém que eu havia cativado para me mandar uma pequena lembrança. Fiquei alisando o papel, pensando agora sobre minhas atuais ‘amigas’. Ao pensar sobre isso, reparei o quanto era infeliz, porque eu tinha que me submeter aos caprichos delas, enquanto minha verdadeira vontade era de sair justamente com as moças das quais elas tanto falavam mal... Pronto, tinha descoberto outro ponto em que eu era hipócrita. Comecei a pensar que talvez, todos os meus problemas de relacionamento se resumissem apenas isso, mentiras sobre mentiras.
     Lembrei-me vagamente de minha mãe, era dela que eu herdei essa estranha característica. Afinal, ela nunca fora feliz no casamento, mas por ser uma católica fervorosa jamais aceitou ou sequer cogitou a possibilidade de se livrar daquilo que a fazia se sentir miserável, e como se não bastasse isso ainda fingia para todos que era o ser mais feliz do mundo. Eu apenas descobri de seus verdadeiros sentimentos, quando ainda era pequena, e secretamente li o seu diário, a partir daquele dia, meus conceitos de família tinham sido alterados completamente.
Sem notar a carta tinha caído de minhas mãos, mas eu não quis a pegar, não ainda. Não conseguia parar de pensar que talvez todos os meus problemas não passassem de antigos fatos mal resolvidos. Já tinha lido em algumas revistas cientificas que boa parte dos problemas do sub-consciente eram provocados durante a infância. As memórias de minha mãe me fizeram pensar se realmente ela seria a causadora de tudo aquilo e não pude deixar de pensar que sim e não. Sim, porque ela era quem ficava comigo quase que todas as horas do dia, mas não também porque ela não sabia que estava me influenciando, e a verdade era que ela apenas queria viver sua vida da maneira que ela julgava certo, se eu aprendi a ser como ela, isso tinha sido apenas uma conseqüência de mim mesma.
      Finalmente, dobrei-me e já não me agüentando mais de curiosidade rasguei o envelope cuidadosamente. A principio, apenas pensava comigo mesma. Queria mudar, não queria ser alguém melhor, queria apenas ser eu mesma, sem mentiras e sem magoas. Queria cativar alguém, meus filhos e meu marido, quem sabe ate mesmo reacender o amor que nos dois tínhamos tido. Meu desejo era fazer amigos, dessa vez de verdade, que me entendesse e aceitassem como eu era. Ao notar que tinha o papel escrito em mãos parei de pensar para ler.
      -Oi senhorita, talvez você não se lembre de mim, já que nosso encontro se deu há algum tempo atrás. Contudo, tentarei lhe lembrar de quem eu sou. Enquanto fazia sua faculdade, lembra que o seu professor passou um trabalho de grupo e sobrou nos dois? Tenho ate hoje o trabalho guardado na minha gaveta, era sobre a evolução da língua portuguesa, mas isso não importa. Me recordo perfeitamente de quando você sentou do meu lado, a principio tão tímida que mal falava comigo, mas quando começou a se soltar. Nossa, como tagarelava.... me senti tão a vontade, que comecei a contar meus problemas e você com paciência escutou cada um deles, a aula durou algumas horas e mais a hora do almoço, não sei, acho que ficamos umas 4 ou 5 horas apenas juntos. Mas minha imagem de você ficou clara, principalmente, por você ter sido tão honesta comigo. Deve estar se imaginando porque um homem depois de anos esta lhe escrevendo para relembrar o passado, pois eu queria agradecer. Sua sinceridade me fez abrir os olhos e hoje sou completamente realizado graças a você. Queria ter te dito isso ainda mesmo durante a faculdade, mas soube que você tinha largado tudo por causa do casamento, demorei anos para descobrir seu endereço, mas finalmente consegui. Queria apenas dizer. Obrigado.
      Eu li em voz alta aquela carta algumas vezes. Eu tinha salvado uma vida. Uma lagrima escorreu por meus olhos, todos os meus pensamentos antes estavam corretos, eu precisava parar de me esconder atrás de uma fria mascara de indiferença e perfeição. Precisava mostrar aos outros quem era a verdadeira eu e quem me aceitasse, talvez tomasse algumas surpresas, mas iria rir, chorar e confiar em mim também, e assim eu também seria feliz.
     -Eu salvei sua vida...e anos depois você salvou a minha. Acho que estamos quites então...
     Ouvi a porta do meu quarto abrindo e meu marido descia as escadas ainda sonolento, dobrei a carta e a escondia, aquele seria meu ultimo e pequeno segredo.
Então, corri ate as escadas e com um sorriso sincero joguei-me nos braços dele. Claro que minha timidez não tinha sumido, e esse ato fez com que eu corasse, mas ainda sim o fiz. Ele me olhou confuso e eu apenas disse.
      -Desculpa nunca ter te falado isso antes tão claramente, mas você é meu melhor amigo...e eu te amo!
       Aquele foi meu primeiro passo, o primeiro de muitos, e a recompensa veio quase que imediatamente, ele me sorriu, igual a quando nos casamos e então todas as duvidas de antes morreram e eu tive certeza de que tinha um lugar no mundo, que eu tinha cativado algumas pessoas e que sendo honesta, poderia conquistar o mundo.

Coração de papel

Meu coração é de papel, onde cada dia é uma pagina em branco. Complete os espaços, quando vivermos juntos. Não pense, anote pequenas frases, momentos.
Faça com sinceridade e sentimentos eternos. Não confie no que pensa, apenas no que sente, enquanto a caneta escorrega pelos seus dedos. Enquanto o mundo muda, não deixe que aquelas palavras se alterem.
Porque, se algum dia, nosso tempo terminar, a única coisa que me sobrará serão as memórias escritas nesses diários. Como serão as paginas seguintes, caso você minta pra mim?
Os olhos que leem, verão as mentiras ali escritas juntamente com todas as memórias que tivemos, e a única opção que lhe restará será deixar as gotas salgadas descerem. Escorrendo... escorrendo... até chegar no coração de papel que ira se despedaçar.

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Notas da autora:
após um termino de namoro deu esse pequeno conto, tambem baseado no subnick do msn de uma amiga. Só depois de uns dois paragrafos descobri que ja existia uma musica com esse titulo, mas decidi deixar...
espero que gostem
em breve uma foto acompanha o conto

O jardim

Quando era pequeno demais para entender como os adultos pensavam, eu observava meu pai cuidando do jardim de casa. Ele era tão cuidadoso e atencioso, todas as flores e folhas tinham uma atenção especial. Sempre pensava porque ele fazia isso, mas nunca me atrevia a perguntar, apenas olhava através do vidro, em silêncio. Normalmente, mamãe ia ajuda-lo ou levar algo gelado e refrescante.
Eles juntos trabalhando no jardim era romântico e contagiante, nunca desviava meus olhos, nem por um segundo, muitas vezes sorrindo com as atitudes deles. Talvez, todas aquelas risadas e amor que dividiam fazia as plantinhas crescerem ainda mais fortes e bonitas.
Os anos iam passando, porém o hábito do jardim continuava, agora eu e minha irmã já podíamos ajudar e tudo sempre parecia divertido. Contudo, um dia tudo mudou. Eu me apaixonei tão perdidamente que doía dentro do meu peito, e tudo perdeu o sentido, até mesmo as plantinhas. Sabia que meus pais estavam preocupados, mas aquilo era mais forte do que eu por mais que tentasse.
Ate que houve um final de semana que meu pai adentrou meu quarto e sentou na cama, ficamos em silêncio durante muito tempo, ate que ele começou.
-Filho, que houve? Estamos preocupados com você.
-Bom, pai, tem essa menina no meu colégio... linda, inteligente, tudo de bom sabe? Mas ela não sabe da minha existência. E isso dói.
Meu pai sorriu e eu não entendi nada, ia ficar bravo por ele estar achando graça da minha dor. Todavia, ele remexeu meus cabelos falando de uma forma gentil.
-Cuide do seu jardim, que as borboletas virão.
-Não entendi, pai!
-Quando estava apaixonado por sua mãe, seu avô disse que eu devia dar-lhe flores do nosso próprio jardim para mostrar o quanto gostamos dela. Faça isso que tudo dará certo, te garanto.
No principio estava tão desconfiado daquela ideia maluca do meu pai e avô, mas depois pensando bem, o que eu tinha a perder? Conversei com alguns conhecidos dela e descobri sua cor e flor favorita. Depois passei um bom tempo cultivando varias sementes, ate a flor nascer, a mais bonita do meu jardim inteiro eu peguei e plantei em um vasinho. Pintado com sua cor favorita, na terra tinha um envelope que dizia assim:
Essa é a flor mias bonita do meu jardim e foi plantada e destinada à você e mais ninguém. Contudo, por mais linda que ela seja, você é muito mais. Meu pai fala que lindas flores atraem lindas borboletas. Deixa-me ser sua borboleta? Se sim, me encontre na sala de artes, depois do ultimo tempo!
Coloquei o vaso na mesa dela e esperei o resto do dia. Não preciso pensar para afirmar que foi o pior dia da minha vida, a ansiedade ia aumentando conforme o tempo passava e eu não conseguia me concentrar, não importava o quanto tentasse. Quando o sinal da ultima aula tocou, apenas corri. Meu coração batia tão rápido e tão alto que podia jurar que todos ouviam. Entrei na sala vazia e fiquei mirando a porta.
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Minutos
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Segundos
Foi o tempo preciso que ela demorou à aparecer na minha frente segurando o jarro com a rosa vermelha. Suas bochechas estavam coradas e apesar dela me olhar algumas vezes, sempre desviava para longe. Naquele dia, conversamos pela primeira vez. Quando completamos duas semanas que saiamos juntos ela me disse de um sério e fofo.
-Eu deixo você ser minha borboleta!
Aquela foi a frase que nos fez começar a namorar, não demorou muito para ela entrar no esquema de cuidar do nosso jardim. Um ano depois, já era um bom amigo da família dela. Dois anos depois viajamos juntos para um chalé na montanha. Três anos depois estávamos em faculdades diferentes, mas noivos. Hoje, quatro anos dois meses e um dia estou dizendo perante familiares e amigos.
-Te aceito como minha esposa...