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Romeu da bananeira


Os pés descalços pela grama eram apressados, porém calmos. A vizinhança inteira se calava ao ouvir aquele som, e não demorava muito para que todos ficassem com seus olhos pregados no menino que o fazia.

Eram assim todos os dias, bastava o sol começar a cair que o garoto, chamado Nadre, passava só de calça e sorriso no rosto. Ele ia até uma bananeira e ficava ali durante algum tempo olhando o pôr-do-sol e quando ninguém o observava, ele sumia. As fofoqueiras ficavam logo a especular. Era a graça daquela pequena vila.

Quando escutou o som, Maria ficou a observar o menino e não tardou a chamar seu filho.

-Diga, mainha!

-Carlos, ocê estuda cum o minino Nadre, certo?

-Certo sim!

-Pois me faça um favô! Vá falar cum ele. Estou aqui me comendo di tanta curiosidade.

-Mas sabê do quê, mainha?

-Sabê do que raios ele faz ali todo dia, parado prá depois dá de sumi.

-AH! A fofoca... - Carlos sorria discretamente.

-É, isso mermo. Agora vá lá, muleque.

-Ora, ora. Tô a fazer favô e ainda sô muleque.

-Anda!!!!

-Are are. Tô indo, mainha... Tô indo.

A mãe e a vizinhança toda ficaram de butuca, esperando algum resultado. Enquanto isso, Carlos caminhava sem pressa com as mãos no bolso.

-Nadre, cabra bão. Quer me dar uma ajudinha?

-Fale, omi! – o distraído menino olhou Carlos. -

Todos querem saber por mode quê raios tu vai e somi que nem diabo encontra!

-Are. Olha, posso até ti contá, má tu num abre o bocão prá mais ninguém.

-Ih! Mas mainha vá dar chilique.

-Então, num falo nada.

-OK, cumpadi. Minha curiosidade venceu. Fale que ficará aqui. Nadre cuspiu na mão e estendeu para o amigo que repetiu o gesto e deu um belo aperto nele.

-Eu vou na bananeira.

-Na bananeira? Tu sobe?

-É! - Nadre sorria com a expressão do amigo diante da descoberta.

-E pra mode quê, Meu Deus?

Fez-se um momento de silêncio, até que o menino descalço respondeu.

-Vô pra vê Lina. – um sorriso tímido passou pelos lábios dele.

- Omi, explique que nada entendo!

Nadre apontou para uma janela bem próxima da bananeira, ele sorria contente e as maçãs de seu rosto estavam mais avermelhadas. Carlos soltou uma longa gargalhada.

-Má tu fica lá em cima quanto tempo? ;

-Ah! Até a cidade mi esquecê e a noite caí. Daí, eu desço.

-Má por mode quê? Não seria mais fácil tu pedi ela em namoro?

-Má ora! Claro que é mais fácil, omi! Má cadê o tar de romantismo?

-Certo. Certo! – o espião deu um sorriso largo e deixou o amigo romântico perto de sua planta.

Caminhou no mesmo passo de antes até sua casa, já podia ver toda a vizinha se aglomerando perto do portão preto.

-Diga então, Carlinhos?- uma das vizinhas não se conteve.

-Fale, meu fio! Todas as mulheres foram se aproximando do jovem.

-Nada disso. Num abro bico.

-Má por mode quê, diacho?- Maria logo ficou nervosa com seu primogênito.

-Porque si não vou matar Romeu e vou matar Julieta.

-Ora diacho. Nada entendo.- alguém na multidão reclamou.

-Foi o que disse, mainha. Romeu e Julieta!

As mulheres não entendiam mais nada e quando olharam para o pé da bananeira, Nadre já tinha desaparecido. Carlos ficou olhando para a janela e viu Lina ali, quase a se derreter. Enquanto isso, a cidade toda ainda se corroía de curiosidade e voltava para sua casa.

Quando todos já tinham entrado e o jantar já estava nas mesas, Nadre desceu da bananeira. Seus passos agora eram silenciosos e ainda mais calmos do que antes. Carlos estava no portão, esperando por ele.

-Diga, Romeu. O romantismo deu certo?

-E si num deu!? Ganhei até beijo voador.

-Então, amanhã?

-É. Amanhã vô lá di novo.

-Boa bananeira prá ocê, cabra.

-Bão segredo prá ocê!

Eles trocaram sorrisos e seguiram seus caminhos. O menino da árvore continuou com seu romantismo “bananesco” e Carlos continuava se divertindo, escondendo o mistério da pequena vila.