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O ciclo do silêncio

O silencio de uma casa deserta... Uma criança espera sentada na escada pelas pessoas que nunca virão. A comida esta pronta e gelada, mas não há ninguém para sentar a mesa. Uma musica de balé toca de leve, já esta escuro...
Ela sobe devagar, os deveres estão por fazer em cima da mesa, já não há mais aula. Devagar, ela se inclina na janela e vê as famílias saindo de mãos dadas com suas dançarinas. Devagar, ela mira seus próprios pés, que há anos te traíram não a deixando dançar. Os sorrisos são o que mais a atrai, ela os olha com admiração. E, só sai da janela quando a última família já se foi.
Barulho de chave alerta para a presença de alguém, ela desce, correndo, quase tropeça, mas esta lá antes da porta abrir. Dois olhos a miram, sorriem, abraçam e falam alguns minutos e somem pela casa. As vozes se alteram, as vozes somem, beijos, abraços, gritos e tapas.
Os deveres prontos estão, um grito de boa noite, um quarto escuro e frio. Nem mesmo os cobertores poderão aquecê-la esta noite...
Despertador toca, antes de todos estarem de pé, ela já esta pronta para partir. Material em mão e a comida já esta pronta e fria, mas não há ninguém para sentar a mesa. A caminhada é curta, até o colégio, amigos, risos, aulas, bilhetinho, recreio, comida, bola, aulas, conversa, risos, uma professora emburrada.
A volta sozinha, silenciosa, a comida esta quente, mas ainda sim não há ninguém para sentar-se a mesa. A empregada sobe e desce, em um vai e vem frenético. Se a saudade esta grande, porque não um programa de TV?
Lanche, deveres a fazer, algumas horas de cochilo. A empregada já se foi, novamente a casa vazia. O sol ainda está alto, mas nada se vê dentro daqueles ambientes, a não ser a criança sozinha. Vai escurecendo, a musica volta a tocar, pais conversam do lado de fora animadamente... Ela esta dentro sozinha. Passo a passo, ela sobe, senta na janela e fica a ver as pessoas do lado de fora. As famílias saindo...
Esse é o ciclo do silêncio dela...

Botão de rosa

Andava pelas ruas
sem pensamentos profundos,
apenas observando
a
vida
em
volta.

Foi quando vi,
um pequeno botão de rosa.
Vermelho como a paixão
discreto como um casal de amantes.

Não conseguia
retirar meus olhos.
Sem pensar,
puxei a frágil flor do solo.


Levei-a para casa,
dei água, luz e terra...
Contudo ela não florescia.


Com um pesar no meu peito,
voltei
para o local onde tudo tinha começado.
Replantei-a e fui embora.

Tempos depois.
Eu a vi.
Tão linda.
Madura.
Aberta.
Suas pétalas delicadas
se exibiam
para todos.
E uma multidão,
encantada
a olhava.

Todos os dias,
eu a via,
porém,
a distancia.
Jamais poderia
deixar de vê-la...